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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Dois dias depois, Marcelo me ligou.

— Preciso te contar uma coisa antes que você escute por outra pessoa.

Eu já tinha escutado.

Mesmo assim, deixei que falasse.

— Na reunião do conselho, o Roberto disse que a família Nogueira estava pressionando a Tavares por causa da nossa separação.

— E o que você respondeu?

Houve uma breve pausa.

— Na hora, eu disse que a questão precisava ser analisada com números.

— Entendi.

— Foi uma resposta ruim.

— Foi.

— Depois da reunião, pedi ao financeiro um levantamento dos últimos cinco anos.

Sentei à mesa.

— E?

— O relatório mostrou exatamente o que você dizia. Nenhum contrato foi rompido. Nenhum reajuste aconteceu fora de prazo. O que mudou foram renovações, descontos comerciais e condições que não estavam garantidas.

— Isso já era sabido.

— Por você.

A voz dele perdeu força.

— Eu sabia que existiam vantagens. Não sabia o tamanho delas.

— Porque nunca precisou saber.

— É.

Marcelo respirou.

— Amanhã teremos outra reunião. Vou corrigir isso.

— Não precisa fazer por mim.

— Não é por você.

Esperei.

— É porque é verdade.

Aquela resposta importou.

Não para recuperar nosso casamento.

Mas porque, pela primeira vez, Marcelo parecia entender que responsabilidade não era uma ferramenta usada para conseguir perdão.

Era uma obrigação mesmo quando o perdão não vinha.

No dia seguinte, Laura me mandou apenas uma mensagem:

“Ele corrigiu.”

Não perguntei detalhes.

Soube depois, por meio de documentos comerciais que chegaram à empresa da minha família, que Marcelo havia registrado em ata que os contratos com empresas ligadas aos Nogueira estavam sendo cumpridos normalmente e que as alterações de condições resultavam de renegociações regulares.

Também assumiu que a Tavares havia se beneficiado durante anos de condições comerciais favorecidas por relações que não deveriam ter sido tratadas como permanentes.

O conselho não aplaudiu.

Não precisava.

O importante era que a versão conveniente havia deixado de ser aceita como verdade.

Enquanto isso, minha vida avançava.

No novo trabalho, assumi a liderança de um projeto de integração de fornecedores.

Era a primeira vez que eu ocupava formalmente uma posição equivalente ao trabalho que, durante anos, executara sem título.

Quando meu diretor apresentou meu nome numa reunião com parceiros, disse:

— Helena lidera essa frente. As decisões técnicas passam por ela.

Simples.

Direto.

Sem piada.

Sem explicação sobre meu marido.

Aquela frase ficou comigo o resto do dia.

Não porque fosse extraordinária.

Justamente porque deveria ter sido normal.

O divórcio também avançava.

A casa foi colocada à venda.

Marcelo retirou algumas coisas pessoais antes das visitas dos corretores. Eu fui uma tarde buscar livros e documentos.

Entrar ali depois de semanas foi estranho.

A sala estava quase igual.

As mesmas almofadas.

A mesma mesa.

A mesma luminária que havíamos escolhido juntos.

Na cozinha, fiquei parada diante da cadeira onde passei aquela madrugada esperando Marcelo voltar da festa.

A madeira não tinha mudado.

Eu tinha.

Ouvi a porta se abrir.

Marcelo entrou carregando uma caixa.

— Não sabia que você viria hoje.

— Também não sabia que você viria.

Ele colocou a caixa no chão.

Por alguns minutos, cada um seguiu para um lado da casa.

Depois nos encontramos no corredor.

— A Laura te contou sobre a reunião?

— Contou que você corrigiu.

— Só isso?

— Só.

Marcelo assentiu.

— Eu devia ter feito na hora.

— Devia.

— Eu percebi que ainda tenho o hábito de adiar qualquer coisa que possa me fazer parecer errado.

— Você sempre foi bom em controlar ambiente.

Ele sorriu sem alegria.

— Era uma qualidade na empresa.

— Continua sendo, em algumas situações.

— E um defeito em outras.

Não havia muito a acrescentar.

Peguei uma caixa de livros.

Marcelo se aproximou.

— Posso ajudar?

— Pode.

Descemos juntos até meu carro.

Quando colocou a caixa no porta-malas, perguntou:

— Você está bem no trabalho novo?

— Estou.

— Melhor do que na Tavares?

Pensei antes de responder.

— Diferente.

— Isso é diplomático.

— Então vou ser específica. Estou em um lugar onde minhas responsabilidades e minha autoridade combinam.

Marcelo olhou para o chão.

— Eu podia ter te dado isso.

— Podia.

— E não dei.

— Não.

Ele fechou o porta-malas.

— Eu costumava pensar que, se você quisesse mais, pediria.

— E eu costumava pensar que, se você me valorizasse, perceberia.

— Os dois estavam esperando o outro adivinhar.

— Em parte.

A diferença era que meu silêncio não havia colocado Marcelo numa posição pública de inferioridade.

Mas eu não precisava repetir isso.

Ele sabia.

Antes de ir embora, Marcelo perguntou:

— Você acha que algum dia vamos conseguir conversar sem falar sobre tudo isso?

— Acho.

— Quando?

— Quando isso deixar de ser uma ferida aberta e virar apenas uma parte da nossa história.

Ele assentiu.

Na semana seguinte, os advogados enviaram a minuta final do acordo patrimonial.

Não havia grandes divergências.

Uma questão, porém, permanecia.

A participação indireta de alguns investimentos feitos durante o casamento em operações ligadas à expansão da Tavares precisava ser avaliada para que ninguém abrisse mão do que legalmente lhe cabia.

Marcelo não tentou esconder nada.

Eu também não quis usar o processo para controlar a empresa.

Os profissionais fizeram os cálculos.

Nós revisamos.

Foi lento.

Foi impessoal.

E justamente por isso funcionou.

Nesse mesmo período, recebi do meu pai a informação de que um dos contratos logísticos antigos entre os Nogueira e a Tavares chegaria ao fim em três meses.

— Eles pediram renovação — disse ele.

— Em quais condições?

— Mercado.

— Então avaliem como qualquer cliente.

Meu pai sorriu.

— É o que eu esperava ouvir.

Não pedi desconto para Marcelo.

Não pedi preço maior para puni-lo.

A relação comercial finalmente ocupava o lugar que deveria ter ocupado desde o começo.

Negócio.

Na Tavares, Laura fez o mesmo.

Apresentou uma proposta com novos volumes, prazos e responsabilidades.

A renovação foi negociada por equipes profissionais de ambos os lados.

Eu não participei.

Quando Marcelo soube disso, mandou uma mensagem:

“Parece que finalmente conseguimos fazer o que eu dizia querer naquela noite: separar família e empresa.”

Fiquei alguns minutos olhando a tela.

Depois respondi:

“Sim. Só precisou parar de diminuir uma para valorizar a outra.”

Ele não respondeu de imediato.

Quando respondeu, escreveu apenas:

“Você tem razão.”

No final daquele mês, nossa casa foi vendida.

O divórcio estava praticamente pronto.

Faltava apenas a assinatura definitiva.

E, com ela se aproximando, percebi que o último confronto entre nós não seria sobre dinheiro, empresa ou contratos.

Seria sobre aceitar que algumas pessoas aprendem tarde demais aquilo que precisavam aprender enquanto ainda havia algo para salvar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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