
Parte 3
Às oito e cinquenta da manhã, estacionei no mesmo subsolo onde havia deixado meu carro quase todos os dias durante uma década. Pela primeira vez, porém, não carregava notebook, amostras de fornecedores nem a pasta de pendências que costumava revisar antes mesmo de chegar à minha mesa. Levava apenas minha bolsa, o crachá provisório que a recepção havia preparado para visitantes e uma pequena caixa vazia para recolher meus objetos pessoais.
A funcionária da recepção evitou me encarar por tempo demais.
— Bom dia, dona Helena.
— Bom dia.
Ela estendeu o crachá de visitante com as duas mãos.
A ironia não me escapou. Na véspera, eu tinha saído dali como subgerente de suprimentos. Na manhã seguinte, precisava ser autorizada para entrar.
Não senti humilhação.
Senti clareza.
No RH, assinei o pedido formal de desligamento e confirmei que cumpriria as obrigações necessárias para uma transição organizada. Não aceitei, no entanto, a proposta de permanecer por mais trinta dias como “apoio especial da presidência”.
— Posso documentar os processos que são de responsabilidade do meu cargo — expliquei. — Não vou continuar executando funções extras depois de sair.
A gerente de RH assentiu com cautela.
Quando cheguei ao setor de suprimentos, as conversas diminuíram.
Alguns colegas fingiram trabalhar. Outros me olharam com uma mistura de constrangimento e curiosidade.
Eu não os culpei.
A cena da noite anterior já devia ter atravessado cada andar da empresa antes do primeiro café.
Abri minha gaveta.
Duas canecas, três canetas, um porta-retrato pequeno e uma agenda antiga.
Dez anos cabiam em uma caixa menor do que eu imaginava.
Enquanto separava meus pertences, Camila, uma analista que trabalhava comigo havia quatro anos, aproximou-se.
— Helena… você vai mesmo embora?
— Vou.
— Mas ninguém sabe como estão as negociações da linha de resinas especiais. O Eduardo está tentando entender a planilha desde cedo.
— Está tudo registrado no sistema.
Ela hesitou.
— O histórico está. Mas os fornecedores sempre ligavam direto para você quando aparecia algum problema.
— Então agora precisam aprender quem será o novo contato.
A resposta pareceu dura até para mim, mas era necessária.
Durante anos, eu havia confundido eficiência com disponibilidade total. Se um caminhão atrasava às onze da noite, eu atendia. Se um fornecedor precisava antecipar lote no domingo, eu resolvia. Se alguém da fábrica ligava antes das seis da manhã, eu já sabia de qual material estavam falando antes mesmo de abrirem a planilha.
Aquilo não podia continuar existindo apenas porque todos estavam acostumados.
Pouco depois das dez, Laura apareceu na porta.
Ela estava de calça social escura e camisa clara. Sem o vestido branco, sem iluminação de evento, sem aplausos, parecia apenas uma executiva chegando para trabalhar.
— Podemos conversar?
Apontei para uma cadeira.
Laura entrou e fechou a porta.
— Primeiro, eu quero deixar uma coisa clara. Eu não sabia que você seria afastada da área.
Observei seu rosto antes de responder.
— Eu não fui afastada. Pedi demissão.
— Depois de ontem.
— Depois de ontem.
Ela apoiou as mãos sobre os joelhos.
— Marcelo me disse que você passaria a atuar em uma posição mais estratégica e que eu assumiria a operação.
Aquilo me surpreendeu, mas não o suficiente para mudar nada.
— Ele nunca disse isso para mim.
Laura fechou os olhos por um instante.
— Então começamos mal.
— Você não começou nada comigo. O problema não é você.
— Ainda assim, eu vou herdar uma equipe que acredita que eu vim substituir a esposa do presidente depois de uma humilhação pública. Isso afeta meu trabalho.
Eu respeitei a honestidade.
— Afeta.
— E eu preciso saber o que é processo da Tavares e o que dependia de você pessoalmente.
— Essa é a pergunta certa.
Abri o sistema e comecei a mostrar o que estava documentado.
Contratos.
Calendários de renovação.
Critérios de homologação.
Volumes mínimos.
Rotas logísticas.
Fornecedores alternativos.
Nada foi escondido.
Mas, quando Laura perguntou por que três fornecedores ofereciam prazos significativamente melhores à Tavares do que a empresas do mesmo porte, respondi apenas:
— Relação comercial construída ao longo dos anos.
— Pela Tavares?
Olhei para ela.
— Em parte.
Ela entendeu.
No início da tarde, Marcelo entrou sem bater.
— Preciso falar com você.
Laura levantou-se.
— Já terminamos por enquanto.
Antes de sair, ela se virou para Marcelo.
— Só uma coisa. A transição dessa área deveria ter começado meses atrás, não ontem à noite.
Ele não gostou do comentário.
Eu gostei menos ainda do fato de ela estar certa.
Marcelo esperou a porta fechar.
— O fornecedor de componentes eletrônicos ligou para o financeiro. Quer rever o limite de crédito da Tavares na próxima renovação.
— É direito deles.
— Isso nunca aconteceu.
— Porque durante anos eu participava das reuniões com eles.
— Então liga para o diretor comercial.
— Não trabalho mais aqui.
Ele cerrou a mandíbula.
— Seu desligamento ainda nem foi processado.
— Meu trabalho hoje é transferir processos. Não renegociar uma relação pessoal que você acabou de dizer publicamente que não era profissional.
Ele caminhou até a janela.
— Você pretende repetir essa frase até quando?
— Até você entender o problema.
Marcelo virou-se.
— Qual é o problema, Helena? Você perdeu um cargo?
Foi nesse momento que percebi algo importante.
Mesmo depois de tudo, ele ainda achava que eu estava discutindo uma cadeira.
— Não.
Fechei o notebook.
— O problema é que você passou dez anos aceitando tudo que eu construía e, na primeira oportunidade de mostrar ao mercado uma versão mais sofisticada da empresa, decidiu que eu era a parte que precisava ser escondida.
Ele ficou em silêncio.
Continuei:
— Você podia contratar Laura. Podia promover dez pessoas. Podia reorganizar a empresa inteira. Só precisava conversar comigo antes e tratar meu trabalho como trabalho.
— Eu achei que você entenderia.
— Esse foi o seu erro. Você não conversou comigo porque achou que minha compreensão era garantida.
Marcelo tentou se aproximar.
— Vamos para casa e conversamos à noite.
— Hoje eu não vou para casa.
Ele parou.
— Como assim?
— Vou ficar alguns dias no apartamento da minha mãe que está vazio.
— Helena, não exagera.
— Não é exagero. É distância.
Peguei a caixa com meus objetos.
— Pela primeira vez em dez anos, eu preciso descobrir quantas decisões da minha vida eu tomei porque queria mesmo e quantas tomei porque eram convenientes para nós dois.
Passei por ele.
No corredor, Laura estava falando com dois gerentes.
Não havia vitória no rosto dela.
Não havia provocação.
E aquilo confirmou algo que eu já sabia desde a noite anterior: eu não precisava transformar outra mulher em inimiga para reconhecer quem tinha me ferido.
Quando cheguei ao elevador, Marcelo veio atrás.
— Você vai mesmo embora de casa por isso?
A porta se abriu.
Entrei.
— Não.
Olhei para ele enquanto as portas começavam a se fechar.
— Estou indo embora porque “isso” não começou ontem.
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