Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Passei a primeira noite no apartamento vazio da minha mãe com uma mala pequena e uma sensação estranha de ausência. Não era saudade de Marcelo. Era a falta dos hábitos que eu confundira durante anos com segurança: o som da cafeteira dele de manhã, o paletó sobre a cadeira, a mensagem perguntando a que horas eu chegaria.

No dia seguinte, não fui à Tavares.

Meu desligamento já estava formalizado, e a equipe possuía os documentos necessários para continuar trabalhando.

Pela primeira vez em anos, meu celular ficou sobre a mesa enquanto eu tomava café.

Às nove e vinte, uma mensagem de Marcelo apareceu.

“Precisamos conversar sobre os contratos.”

Eu não respondi imediatamente.

Não porque quisesse puni-lo.

Porque finalmente percebia a diferença entre urgência dele e obrigação minha.

Às dez, fui ao escritório da empresa da minha família. Os Nogueira não eram donos de um império capaz de destruir a Tavares com um telefonema, e eu nunca quis que fossem. Ao longo dos anos, porém, nossas empresas tinham dividido rotas logísticas, volumes de compra e relações comerciais que permitiam condições melhores para ambos os lados.

Meu pai me recebeu na sala dele.

— Você tem certeza?

— Tenho.

— Quer que a gente cancele alguma coisa?

— Não.

Ele assentiu, como se já esperasse a resposta.

— Tudo que está assinado continua sendo cumprido. O que vencer será renegociado normalmente. Sem favor. Sem desconto porque eu sou casada com o Marcelo. Sem usar nossos volumes para melhorar a condição deles se isso não for vantajoso para nós.

Meu pai apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— E o galpão de apoio?

A Tavares utilizava parte de uma estrutura logística dos Nogueira por um valor definido anos antes, quando a empresa ainda era pequena. O contrato não estava vencendo naquele mês, portanto não havia nada a fazer de imediato.

— Cumprimos até o fim.

— Depois?

— Depois eles decidem se querem renovar pelo preço de mercado.

Ele observou meu rosto.

— Você não quer vingança.

— Não.

— Mas também não quer continuar sustentando a relação.

— Exatamente.

Aquele detalhe fazia toda a diferença.

Se eu quisesse destruir a empresa de Marcelo, poderia tentar transformar cada relação comercial em arma.

Mas esse não era meu objetivo.

Eu queria apenas parar de oferecer, silenciosamente, uma vantagem que ele aprendera a considerar natural.

No começo da tarde, Marcelo me ligou.

Atendi.

— Você falou com seu pai?

— Falei.

— Um dos fornecedores quer rever condições na próxima renovação.

— Então negociem.

— O financeiro calculou que, se três contratos voltarem para preço de mercado, nossa margem cai.

— Isso faz parte de administrar uma empresa.

Ele respirou fundo.

— Você sabe que não era assim.

— Eu sei perfeitamente como era.

— Então por que está fazendo isso agora?

— Porque antes eu acreditava que estava ajudando a empresa que construíamos juntos.

— Ela ainda é nossa.

— Não, Marcelo.

Minha resposta saiu sem esforço.

— A Tavares é sua empresa. Foi você quem fez questão de deixar isso claro.

Do outro lado da linha, houve uma pausa.

— Você quer parte da empresa?

Quase ri.

— Não estou falando de participação societária. Estou falando de pertencimento.

— Isso é abstrato.

— Só parece abstrato quando você sempre teve.

Desliguei pouco depois.

À noite, Marcelo apareceu no apartamento.

Minha mãe havia deixado a chave comigo, mas não com ele. Então precisou tocar a campainha como qualquer visitante.

Abri a porta e fiquei no vão.

— Podemos conversar?

— Podemos.

Não o convidei a entrar.

Ele percebeu.

— A Laura está dizendo que precisa de pelo menos três meses para reorganizar a área.

— Parece razoável.

— Ela também disse que vários procedimentos dependiam de decisões suas que nunca foram transformadas em política interna.

— Eu tentei formalizar muita coisa. Algumas decisões nunca receberam orçamento.

— Não estou acusando você.

— Ainda bem.

Marcelo apertou os lábios.

— Eu errei na festa.

— Errou.

— Já pedi desculpas.

— Pediu para eu parar de fazer disso uma guerra. Não é a mesma coisa.

Ele ficou incomodado.

— Então o que você quer ouvir?

Essa pergunta confirmou o quanto ainda estávamos longe.

— Nada que eu precise escrever para você repetir.

Fechei um pouco mais a porta.

— Eu não quero uma frase certa. Quero entender se você percebe o que fez.

— Eu fiz uma piada idiota.

— Não foi só a piada.

— Então foi o lugar na mesa?

— Também não.

— Foi a Laura?

— Não.

Marcelo passou a mão pelos cabelos.

— Então me explica.

Olhei para o homem com quem eu havia compartilhado uma década de casamento e percebi que, durante anos, tínhamos falado muito sobre logística, fornecedores, expansão e dinheiro, mas pouco sobre o peso real de cada um dentro daquela história.

— Você tomou uma decisão sobre o setor que eu construí sem falar comigo. Colocou outra pessoa no comando sem organizar transição. Tirou meu lugar da mesa principal sem sequer perceber o que aquilo representava. Depois, diante do mercado inteiro, reduziu dez anos de trabalho à ideia de que sua esposa podia ir para casa descansar.

Ele não interrompeu.

— E o mais grave é que nada disso pareceu importante para você até começar a afetar custo, prazo e contrato.

O rosto de Marcelo mudou.

Não porque concordasse totalmente.

Porque não conseguiu negar.

— Eu estava tentando mostrar que a Tavares entrou em outra fase.

— Eu sei.

— Precisávamos mostrar profissionalização.

— Eu sei.

— E você acha que eu queria diminuir você?

— Acho que você queria aumentar a imagem da empresa e decidiu que me diminuir era um preço aceitável.

Dessa vez, ele não respondeu.

O elevador fez um som atrás dele.

Marcelo olhou para a porta fechada do apartamento e depois para mim.

— Você vai voltar para casa?

— Não agora.

— E para a empresa?

— Não.

— Nunca?

— Essa decisão já foi tomada.

Ele assentiu devagar.

Talvez só naquele instante tivesse entendido que algumas consequências não existiam para fazê-lo refletir.

Existiam porque determinadas coisas, depois de quebradas, realmente mudavam de forma.

Antes que ele fosse embora, disse:

— Amanhã temos reunião do conselho. O projeto de expansão provavelmente vai precisar ser revisto.

— Sinto muito pela empresa.

Ele me encarou.

— Mas não por mim?

Pensei antes de responder.

— Ainda estou tentando descobrir quanto de você existe separado da empresa.

Marcelo saiu sem dizer mais nada.

Na manhã seguinte, soube que o projeto de expansão não havia sido cancelado.

Mas, pela primeira vez em anos, a Tavares precisaria provar que conseguia crescer sem tratar as vantagens que recebera como se fossem permanentes.

E eu também precisaria descobrir quem era sem continuar fazendo exatamente a mesma coisa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1