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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Caio se mudou para o novo apartamento alguns meses depois. Não escolheu uma cobertura enorme nem um imóvel que parecesse uma demonstração de riqueza. Era um lugar confortável, relativamente perto do trabalho, mas suficientemente distante da casa dos pais para que ninguém aparecesse sem combinar.

Quando me mostrou o apartamento por chamada de vídeo, percebi algo quase engraçado.

Ele estava aprendendo a montar a própria rotina.

Perguntava como conservar certos alimentos, reclamava da quantidade de roupa que uma única pessoa conseguia acumular e descobria que uma casa não se mantinha organizada apenas porque os objetos “voltavam” para o lugar.

Eu poderia ter provocado.

Preferi deixá-lo descobrir.

A mudança também alterou sua relação com Lúcia.

Minha sogra tentou convencê-lo a voltar diversas vezes. Dizia que a casa era grande, que não fazia sentido gastar dinheiro com outro imóvel e que ele estava se afastando da família.

Caio respondeu que morar sozinho não significava abandonar ninguém.

Era uma frase que eu gostaria que ele tivesse aprendido anos antes.

Fernanda também conseguiu alugar um apartamento com os filhos.

Não foi uma saída imediata nem luxuosa. Ela levou meses para organizar orçamento, trabalho e rotina escolar antes de se sentir segura.

Roberto ajudou na mudança, mas não tentou decidir tudo por ela.

Lúcia chorou.

Depois reclamou.

Por fim, teve de aceitar.

De repente, a casa que antes parecia o centro obrigatório da vida de todos ficou muito mais silenciosa.

Roberto me contou isso numa ligação de aniversário.

— Sua sogra vive reclamando do silêncio agora.

Eu ri.

— Ela não reclamava do barulho das crianças?

— Reclamava.

— Então não existe solução.

Roberto também riu.

Nossa relação havia se tornado surpreendentemente simples. Não éramos íntimos, mas ele passou a me tratar como adulta, não como alguém que precisava ser colocada em seu lugar.

Mais de um ano já havia passado desde minha ida para Recife.

Meu trabalho se tornou parte concreta de quem eu era novamente. Eu já não apresentava projetos com as mãos frias de nervosismo. Coordenava pequenas equipes, negociava prazos e tinha autonomia suficiente para discordar quando achava necessário.

Essa mudança apareceu também fora do escritório.

Quando Caio me visitou outra vez, tivemos nossa primeira discussão séria desde que eu saí de São Paulo.

Ele havia passado três dias comigo e, na última noite, disse que sentia que estávamos reconstruindo o casamento.

Eu respondi que estávamos reconstruindo uma relação.

— Qual é a diferença?

— Relação não significa necessariamente casamento.

Caio se fechou.

Perguntou se, depois de todo o esforço dele, eu ainda pensava em me divorciar.

A expressão “todo o esforço” me incomodou.

— Você está mudando porque quer se tornar outra pessoa ou porque acha que, se cumprir uma lista, eu sou obrigada a voltar?

Ele ficou irritado.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Mas foi o que pareceu.

Passamos alguns minutos em silêncio.

No passado, eu teria recuado para evitar uma briga.

Dessa vez, não.

Caio também não saiu batendo a porta.

Sentou novamente.

— Eu tenho medo de fazer tudo isso e você decidir que não quer mais ficar comigo.

A honestidade dele diminuiu minha defensiva.

— Esse risco existe.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Então como eu vivo com isso?

— Do mesmo jeito que eu vivi durante anos com o risco de nunca ser respeitada dentro do meu próprio casamento.

A resposta doeu.

Mas foi necessária.

Expliquei que mudança verdadeira não podia ser uma moeda de troca. Ele não podia me oferecer respeito agora e esperar que eu devolvesse casamento como pagamento.

Caio ficou quieto por muito tempo.

Depois assentiu.

— Você tem razão.

Foi difícil ouvir aquilo sem me emocionar.

Porque aquele homem era, ao mesmo tempo, a pessoa que mais havia me decepcionado e alguém que eu ainda conseguia amar.

Talvez esse fosse o aspecto mais complicado de tudo.

As pessoas não precisam ser monstros para nos machucar profundamente.

Às vezes, basta que escolham o próprio conforto todas as vezes em que deveriam ter coragem.

Na manhã seguinte, Caio fez café antes de ir para o aeroporto.

Sentou-se diante de mim e disse:

— Eu vou continuar tentando mudar, mesmo que no fim você não volte.

Eu não respondi com promessa.

Apenas segurei sua mão.

Meses depois, surgiu no trabalho a conversa sobre o que aconteceria quando o projeto de dois anos e meio terminasse. A empresa pretendia manter parte da equipe no Nordeste e alguns profissionais poderiam permanecer em funções permanentes.

Pela primeira vez, eu me vi diante de uma escolha real.

Voltar para São Paulo não era automático.

Ficar em Recife também não.

Eu tinha construído uma vida ali.

Amigos, trabalho, rotina e uma versão de mim mesma que aprendera a respirar sem pedir licença.

Quando contei a Caio que talvez tivesse a possibilidade de permanecer, ele demorou um pouco antes de responder.

Meu coração apertou.

Parte de mim esperava que ele dissesse que aquilo era absurdo.

Mas ele perguntou:

— Você quer ficar?

— Ainda não sei.

— Então descubra.

Foi só isso.

Nenhuma cobrança.

Nenhum “e eu?”.

Nenhuma lembrança de que éramos casados como se o casamento fosse uma ordem.

Depois acrescentou:

— Quando você souber, a gente conversa sobre o que isso significa para nós.

Eu desliguei a ligação alguns minutos depois e fiquei olhando a tela apagada.

Dois anos antes, eu teria dado qualquer coisa para ouvir Caio falar daquela maneira.

Agora, porém, a pergunta era outra.

Não era mais se ele havia mudado o suficiente.

Era se eu ainda desejava construir minha próxima vida ao lado dele.

E essa resposta só poderia vir de mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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