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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Ninguém respondeu imediatamente. Fernanda foi a primeira a desviar o olhar, enquanto minha sogra tentou acalmar o marido dizendo que ninguém estava questionando a capacidade dele. Eu apenas assenti e disse que respeitaria a decisão. Se Roberto afirmava que não precisava da minha ajuda, eu não tinha motivo para insistir.

Caio esperou até entrarmos no quarto para perguntar se eu tinha ficado ofendida. Respondi que não, porque o pai dele havia sido bastante claro. Ele soltou um suspiro e disse que Roberto falava daquele jeito quando estava irritado. Depois acrescentou que, caso as coisas apertassem, eu poderia ajudar um pouco sem transformar aquilo em problema.

Olhei para ele por alguns segundos. Até então, eu ainda tinha o hábito de explicar demais tudo o que sentia, como se precisasse apresentar argumentos para ter direito a um limite. Naquela noite, não fiz isso. Apenas disse que o pai dele tinha assumido a responsabilidade e que eu não interferiria.

Na manhã seguinte, a casa começou a mostrar o tamanho daquela promessa. O menino de oito anos precisava ser levado à escola, a criança do meio não encontrava o uniforme e o caçula chorava porque não queria tomar café. Roberto tentou resolver tudo ao mesmo tempo, enquanto Lúcia reclamava do barulho e Fernanda saía para entregar currículos.

Eu fiz meu próprio café e me sentei à mesa. Quando Lúcia perguntou onde estavam as meias do menino mais velho, respondi que não sabia. Quando Roberto quis saber o horário exato da saída da escola, disse que Fernanda provavelmente poderia informar. Não fui grosseira; simplesmente parei de assumir tarefas que ninguém havia me pedido com respeito.

No fim daquele dia, Roberto parecia exausto. Mesmo assim, quando me viu recolhendo minha xícara, repetiu que estava tudo sob controle. Eu sorri e respondi que ficava contente. Pela primeira vez, não tentei salvar ninguém do desconforto que havia escolhido.

Naquela noite, abri no computador a confirmação que eu já esperava havia alguns dias. Uma antiga empresa com a qual eu havia voltado a conversar aceitara minha participação em um projeto de longa duração em Recife. O trabalho começaria imediatamente e previa minha permanência fora de São Paulo por dois anos e meio.

Eu havia retomado discretamente meu portfólio meses antes. Não porque já planejasse abandonar Caio, mas porque precisava descobrir se ainda existia alguma parte de mim fora daquela casa. Quando surgiu a oportunidade, participei do processo sem contar à família. Depois de três anos ouvindo que minha carreira não fazia diferença, eu queria tomar ao menos uma decisão sem pedir autorização.

Na manhã seguinte, confirmei minha participação. Passei o restante do dia organizando documentos e algumas roupas, sem anunciar nada antes da hora. À noite, quando todos se sentaram para jantar, pedi alguns minutos para falar.

— Eu aceitei um projeto profissional em Recife — disse. — Vou ficar fora por dois anos e meio.

O silêncio foi tão completo que até as crianças pararam de falar por alguns segundos. Caio franziu a testa e perguntou quando eu tinha decidido aquilo. Respondi que o processo já vinha acontecendo havia algum tempo e que a confirmação tinha chegado.

Lúcia foi a primeira a reagir. Perguntou como eu poderia viajar justamente naquele momento, com a família enfrentando tantos problemas. Fernanda olhou para os filhos e depois para mim, como se só então tivesse entendido o que minha ausência significava para a rotina que imaginara.

— Mas e as crianças? — ela perguntou.

Olhei para Roberto. Meu sogro ficou calado por alguns segundos, o rosto tenso. Então respondi com a mesma serenidade que ele havia ouvido de mim dois dias antes: — Seu pai deixou claro que não precisa que eu cuide delas.

Caio empurrou a cadeira para trás e disse que nós dois precisávamos conversar em particular. Pela primeira vez desde que eu entrara naquela família, porém, ninguém parecia preocupado com o que eu deveria fazer por eles. Todos estavam tentando entender o que fariam sem mim.

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