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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Caio não me procurou naquela noite. Também não mandou mensagem na manhã seguinte, não perguntou se eu tinha chegado bem em casa e não apareceu perto da minha mesa antes do expediente, como costumava fazer. No escritório, tratou-me com educação e a mesma formalidade que usaria com qualquer colega. Aquela distância foi a primeira consequência real da minha confissão.

Eu poderia ter insistido para que ele me escutasse, mas pela primeira vez decidi não transformar minha ansiedade numa obrigação dele. Continuei trabalhando e evitei procurá-lo durante o almoço. No fim da tarde, recebi apenas uma mensagem curta: “Preciso de alguns dias.” Respondi que entendia.

Minha mãe percebeu meu silêncio em casa. Perguntou se Caio tinha terminado comigo e respondi que não sabia. Ela começou a dizer que aquela reação talvez confirmasse que ele se importava com meu dinheiro, mas eu a interrompi. — Não faça isso. Ele acabou de descobrir que o relacionamento inteiro começou com uma mentira da nossa parte.

Ela fechou a boca.

Foi uma mudança pequena, porém importante. Durante anos eu havia aceitado que meus pais decidissem quais pessoas eram confiáveis antes mesmo que eu pudesse conhecê-las direito. Naquela noite, pela primeira vez, deixei claro que não queria que minha mãe transformasse qualquer reação de Caio em prova contra ele.

Dois dias depois, Caio pediu para conversar. Encontramo-nos no mesmo parque onde costumávamos caminhar. Ele parecia cansado, mas não agressivo. Disse que tinha passado aqueles dias tentando separar duas coisas: o que eu havia escondido dele e o que ele próprio tinha feito.

— Você mentiu sobre sua vida — disse. — Mas eu também fui o responsável pelas minhas dívidas. Não vou misturar uma coisa com a outra.

A maturidade daquela frase tornou tudo ainda mais difícil.

Caio contou que havia organizado numa planilha todas as parcelas que ainda precisava pagar. O valor total não era suficiente para destruir a vida financeira dele, mas consumiria boa parte do orçamento por muitos meses. Por isso, tinha cancelado tudo que ainda podia cancelar e começaria a reduzir gastos.

Meu primeiro impulso foi oferecer dinheiro.

Eu podia quitar toda aquela dívida sem sentir diferença na conta bancária.

Mas me lembrei da maneira como nossa relação já estava desequilibrada e não falei imediatamente.

— Eu posso…

Caio ergueu a mão.

— Se você está pensando em pagar, não.

— Mas parte disso aconteceu porque…

— Não aconteceu porque você pediu. Eu comprei porque quis.

Ele explicou que aceitar meu dinheiro agora faria com que se sentisse ainda mais humilhado. Durante meses, acreditara que precisava provar que era capaz de sustentar um padrão de vida melhor. Descobrir que eu poderia pagar todas as bolsas com facilidade já havia atingido seu orgulho de uma maneira que ele ainda estava tentando entender.

— Eu não quero que a solução para a minha irresponsabilidade seja descobrir que minha namorada é rica.

A frase ficou entre nós.

Perguntei então o que ele queria fazer com as bolsas que já tinha me dado.

Caio demorou a responder.

— São suas. Eu dei para você.

Aquilo contradizia exatamente a suspeita inicial da minha mãe.

— Se quiser vender, devolver, guardar ou jogar fora, a decisão é sua — continuou. — Eu não quero nenhuma de volta como se você me devesse alguma coisa.

Senti um aperto no peito.

Aquela declaração não resolvia nosso relacionamento, mas mudava algo essencial dentro de mim. Pela primeira vez desde que minha mãe levantara a suspeita, Caio tinha uma oportunidade concreta de tratar os presentes como moeda de negociação. E escolheu não fazer isso.

Mesmo assim, havia outro problema.

— Por que você precisava tanto que eu publicasse?

Ele abaixou a cabeça.

— Porque eu queria que as pessoas vissem que eu conseguia proporcionar aquilo.

Perguntei se era realmente sobre mim.

Depois de alguns segundos, ele respondeu que não inteiramente.

Caio gostava da imagem. Gostava quando amigos comentavam, quando colegas viam as postagens e quando eu aparecia com algo que ele tinha comprado. Aquelas reações faziam com que ele se sentisse mais bem-sucedido do que realmente era.

— Eu dizia que era para mostrar que você era importante. Mas acho que uma parte era para mostrar que eu era importante.

Não havia grande conspiração escondida naquela resposta.

Havia vaidade.

Havia insegurança.

E havia uma quantidade absurda de dinheiro gasto para alimentar as duas coisas.

— Isso também foi errado — disse ele. — Você não tinha obrigação de servir de vitrine para mim.

Ficamos em silêncio por algum tempo.

Então Caio fez a pergunta que eu sabia que chegaria.

— Sua mãe já sabia quem eu era antes de me conhecer?

Expliquei que ela sabia apenas o que eu havia contado: onde trabalhava, quanto aproximadamente ganhava e como nos conhecemos. Ela tinha escolhido a casa alugada por causa das experiências anteriores, não por uma investigação específica sobre ele.

— Então qualquer homem que chegasse teria passado pelo mesmo teste.

— Sim.

Ele soltou um riso sem humor.

— Isso não faz parecer melhor.

Eu concordei.

Naquele momento, percebi que não havia defesa capaz de transformar aquilo numa atitude justa. O medo da minha família de pessoas interesseiras podia ser compreensível. Enganar alguém por meses continuava sendo uma escolha.

Caio disse que ainda gostava de mim, mas que não sabia se conseguia continuar o namoro como se nada tivesse acontecido. Eu respondi que também não queria fingir que tudo estava normal.

Foi quando decidimos nos afastar por um tempo.

Não houve cena.

Não houve ameaça.

Não houve promessa de que voltaríamos.

Apenas concordamos que precisaríamos descobrir quem éramos sem presentes caros, testes escondidos e papéis que cada um havia criado para impressionar o outro.

Antes de ir embora, Caio disse uma última coisa:

— Se a gente voltar algum dia, eu não quero namorar a filha do presidente do Grupo Vértice.

Olhei para ele, sem entender.

— Quero namorar você. Mas só se eu puder saber quem é você de verdade.

A frase me acompanhou até em casa.

Naquela noite, fui até o quarto da minha mãe e coloquei sobre a cama todas as bolsas que Caio havia me dado.

Ela olhou para elas e depois para mim.

— O que você vai fazer?

— Ainda não sei.

Então acrescentei algo que já sabia.

— Mas não vou mais usar dinheiro, casa falsa ou qualquer outro teste para decidir quem pode ficar na minha vida.

Minha mãe abriu a boca para responder, porém dessa vez eu continuei antes dela.

— Se eu errar, o erro vai ser meu. Se eu acertar também.

E, embora meu relacionamento estivesse mais incerto do que nunca, foi a primeira decisão em muito tempo que realmente pareceu pertencer a mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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