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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Alguns meses depois, a história das bolsas já não fazia parte das nossas conversas diárias. Caio estava concentrado no trabalho e no curso. Eu passava por novas áreas do Grupo Vértice, cometendo erros, aprendendo e começando a compreender a dimensão das responsabilidades que um dia poderiam cair sobre mim. Nossa relação tinha ficado menos cinematográfica e muito mais sólida.

O novo processo seletivo interno de Caio aconteceu no começo do semestre.

Como combinado, mantive distância completa.

Não perguntei ao meu pai quem participaria da decisão.

Não procurei informações.

Nem sequer quis saber quem eram os outros candidatos.

Caio, por sua vez, não me contou detalhes confidenciais nem tentou descobrir se meu sobrenome poderia ajudá-lo.

Quando o resultado saiu, ele me ligou.

— Consegui.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— A vaga?

— A vaga.

Gritei de alegria tão alto que ele afastou o telefone do ouvido.

A promoção não o transformaria num homem rico.

Também não apagava os erros financeiros do passado.

Mas tinha sido conquistada por uma combinação de experiência, estudo e uma segunda tentativa depois da primeira rejeição.

— Agora você pode comprar uma bolsa — brinquei.

— Bloqueando seu número neste momento.

Rimos.

Naquela noite, comemoramos num restaurante escolhido por ele.

Não era caro.

Era apenas um lugar de que gostava.

Quando a conta chegou, Caio olhou para mim.

— Posso pagar hoje?

— Pode.

— Sem interpretação psicológica?

— Nenhuma.

Ele pagou.

Foi só isso.

Nenhum gesto precisava mais carregar um significado maior do que tinha.

Poucos dias depois, minha mãe me chamou para conversar.

Ela havia encontrado algumas fotos antigas das bolsas publicadas nas minhas redes sociais e perguntou se eu pretendia apagá-las.

Pensei.

— Não.

Ela pareceu surpresa.

— Por quê?

— Porque aconteceram.

Eu não queria reescrever o passado para fingir que nunca tinha sido ingênua, que Caio nunca tinha sido irresponsável ou que minha família nunca tinha exagerado na tentativa de me proteger.

As postagens faziam parte de uma fase que tinha terminado.

Não precisava apagá-la para seguir em frente.

Minha mãe ficou pensativa.

— Sabe que, quando tudo começou, eu tinha certeza de que ele estava armando alguma coisa?

— Eu sei.

— E você tinha certeza de que ele era perfeito.

— Também sei.

Ela riu.

— Nós duas somos teimosas.

— Essa parte eu herdei de você.

Ela não negou.

Depois ficou séria.

— Eu queria pedir desculpas por uma coisa.

Olhei para ela.

— Não por desconfiar. Eu ainda acho que tinha motivos para achar estranho. Mas por transformar minha suspeita numa sentença antes de saber o que estava acontecendo.

Fiquei alguns segundos sem falar.

Era uma frase que eu jamais esperaria ouvir meses antes.

— Obrigada.

— E pela casa também.

— Principalmente pela casa.

Ela me deu um leve empurrão no braço.

Rimos.

Então chegou minha vez.

— Eu também errei.

Minha mãe arqueou uma sobrancelha.

— Isso eu quero ouvir com atenção.

— Não devia ter deixado o teste continuar tanto tempo.

Expliquei que, no começo, eu realmente tinha medo de ser escolhida pelo dinheiro. Mas depois usei aquela desculpa para evitar a vulnerabilidade de mostrar quem eu era.

Se Caio me rejeitasse depois de conhecer a realidade da minha família, eu teria de lidar com isso.

Se mudasse por interesse, eu também teria de lidar.

Nenhum teste conseguiria eliminar completamente o risco de amar alguém.

Minha mãe apertou minha mão.

— Agora você entendeu por que ser mãe é horrível.

— Não exagera.

— Um dia você vai ver.

— Não comece a planejar essa parte da minha vida também.

Ela riu.

Na semana seguinte, Caio e eu fomos até a antiga casa que minha mãe tinha alugado.

O contrato de locação estava terminando e ela não pretendia renová-lo.

Eu queria passar lá uma última vez antes de entregar as chaves.

Entramos na sala pequena onde Caio havia sentado tantas vezes acreditando que aquela era a realidade da minha família.

Ele olhou ao redor.

— É estranho voltar aqui sabendo de tudo.

— Para mim também.

— Você se sentia mal quando eu falava em ajudar a melhorar a casa?

— Muito.

Ele riu.

Depois ficou sério.

— Eu fiquei com raiva quando descobri.

— Você tinha razão.

— Tive.

Olhei para ele.

— Não se acostume.

Caio segurou minha mão.

Ficamos alguns minutos em silêncio.

Aquela casa tinha sido construída dentro do nosso relacionamento como um cenário.

Representava minha tentativa de controlar a verdade.

As bolsas representavam a tentativa dele de controlar a imagem.

Nenhum dos dois precisava mais existir.

Antes de sair, fechei a porta pela última vez e entreguei as chaves ao responsável pelo imóvel.

Não senti nostalgia.

Senti alívio.

Naquela noite, eu e Caio caminhamos sem destino durante quase uma hora.

Falamos sobre trabalho, viagem, comida e coisas completamente banais.

Em determinado momento, ele perguntou:

— Você acha que sua mãe gosta de mim agora?

Pensei um pouco.

— Acho que ela desistiu de tentar decidir isso antes de mim.

— Já é progresso.

— Muito.

Parávamos num semáforo quando Caio olhou para mim.

— E você?

— Eu o quê?

— Ainda precisa ter certeza absoluta de que eu não estou com você por dinheiro?

A pergunta não me incomodou.

Meses antes, teria me deixado defensiva.

Dessa vez respondi com sinceridade.

— Não existe certeza absoluta.

Ele ficou quieto.

— Você pode mudar um dia. Eu também posso. Qualquer relacionamento pode acabar por motivos que ninguém consegue prever.

Caio assentiu lentamente.

— Animador.

— Espera.

Segurei a mão dele.

— A diferença é que eu não preciso mais de uma casa falsa para tentar descobrir o futuro. Posso olhar para o que você faz hoje e decidir se quero continuar amanhã.

Ele sorriu.

— E quer?

Olhei para o homem que um dia tinha comprado bolsas que não podia pagar para parecer maior do que era.

Ele continuava imperfeito.

Assim como eu.

— Hoje, quero.

Continuamos andando.

Não fizemos promessa de casamento.

Não planejamos uma vida inteira naquela calçada.

Também não precisávamos.

Algum tempo depois, meu pai me chamou para discutir meu próximo ciclo de formação dentro do Grupo Vértice. Havia diferentes caminhos possíveis.

Pela primeira vez, ele não me disse qual achava melhor.

Apenas apresentou as opções.

Voltei para casa com os documentos e passei horas lendo tudo.

Minha mãe apareceu na porta.

— Quer minha opinião?

Sorri.

— Depois.

Ela assentiu e foi embora.

No dia seguinte, fiz minha escolha sozinha.

Não era a área mais prestigiosa nem a que me colocaria mais perto da presidência.

Era a que eu acreditava que me faria aprender mais.

Quando contei ao meu pai, ele perguntou se eu tinha certeza.

— Não.

Ele me olhou, surpreso.

— Mas escolhi mesmo assim.

Foi nesse instante que compreendi o que realmente havia mudado desde o dia em que minha mãe alugara uma casa velha para testar meu namorado.

Eu tinha passado a vida acreditando que decisões certas eram aquelas tomadas depois de eliminar todos os riscos.

Agora sabia que isso era impossível.

Pessoas podiam decepcionar.

Relacionamentos podiam mudar.

Planos podiam falhar.

O que eu podia controlar era a maneira como reagiria, os limites que colocaria e as escolhas que faria quando a realidade se mostrasse diferente do que eu esperava.

Naquela noite, Caio apareceu para me buscar.

Não trouxe bolsa.

Não trouxe flores.

Apenas abriu a porta do carro e perguntou onde eu queria jantar.

Entrei.

— Hoje eu escolho.

Ele sorriu.

— Perfeito.

E enquanto seguíamos pela cidade, percebi que aquela talvez fosse a maior mudança de todas: eu já não precisava esconder quem era, provar nada a ninguém ou permitir que outras pessoas decidissem por mim. Pela primeira vez, minha vida não parecia um teste que eu precisava vencer — parecia uma escolha que eu finalmente tinha aprendido a fazer.

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