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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

A casa de Roberto ficou pronta no início do mês seguinte.

Por fora, era exatamente o tipo de construção que chamava atenção: três andares, janelas grandes, varanda, jardim planejado e uma garagem onde o Rolls-Royce parecia finalmente caber no cenário.

Mas o entusiasmo dele com a própria casa já não era o mesmo da chegada.

Quando nos convidou para conhecer o lugar, não reuniu a vila.

Chamou apenas nossa família.

Meu pai aceitou.

Entramos juntos pelo portão numa tarde de domingo.

Helena nos recebeu sem formalidade exagerada.

Minha mãe olhou cada cômodo com curiosidade, mas se recusou a fazer os elogios grandiosos que Roberto claramente esperava.

— É espaçosa — disse.

Roberto riu.

— Depois de gastar tudo isso, eu esperava pelo menos “bonita”.

Minha mãe respondeu:

— Também é bonita.

Ele levou a mão ao peito.

— Agora posso dormir tranquilo.

O clima era leve.

Até Roberto nos levar para a varanda dos fundos.

Dali era possível enxergar parte da estrada, algumas casas e, mais distante, o telhado da nossa.

Ele ficou alguns segundos olhando.

— Eu pensei em comprar uma casa para vocês na cidade.

Meu pai imediatamente fechou a expressão.

Roberto levantou as mãos.

— Só pensei. Não comprei.

Minha mãe perguntou:

— Por quê?

— Porque achei que talvez vocês quisessem mais conforto.

Meu pai respondeu:

— E se quisermos, podemos decidir.

Roberto sorriu de leve.

— Foi por isso que não comprei.

Houve um tempo em que ele teria aparecido com chaves na mão esperando gratidão.

Agora aprendera a perguntar.

Minha mãe olhou para o marido.

— Um dia talvez a gente queira morar mais perto de hospital, mercado e essas coisas.

Meu pai pareceu surpreso.

— Você quer?

— Eu disse um dia.

Ela olhou para Roberto.

— E quando esse dia chegar, nós vamos escolher.

— Certo.

O assunto terminou.

Foi uma pequena demonstração de algo que todos estávamos aprendendo: ajudar não dava direito de decidir a vida do outro.

Meu pai tinha aprendido isso comigo.

Roberto aprendia conosco.

Depois do almoço, ele me chamou para caminhar pelo jardim.

— Você ainda me odeia?

A pergunta me pegou desprevenido.

— Nunca odiei você.

— Parecia.

— Eu estava com raiva.

— Ainda está?

Pensei.

— Menos.

Roberto assentiu.

— É mais do que eu merecia quando cheguei.

— Pare de medir tudo pelo que merece. Isso está virando outra forma de pensar só em você.

Ele me olhou e depois riu.

— Você ficou parecido com seu pai.

— Isso é elogio ou crítica?

— Os dois.

Sentamos num banco.

Roberto contou que pretendia manter a casa e passar parte do ano ali, em vez de transformá-la numa propriedade usada apenas em feriados.

Não prometeu voltar para sempre.

Não faria sentido.

Sua empresa, funcionários e vida continuavam em outra cidade.

Mas disse que não queria que a vila voltasse a ser um lugar que existia apenas na memória.

— Posso ligar para vocês quando estiver longe?

— Deve.

— E se eu passar dois dias sem ligar?

— Ninguém vai abrir processo.

Ele riu.

Depois ficou sério.

— Eu não quero desaparecer de novo.

— Então não transforme isso numa promessa enorme. Só ligue.

A resposta pareceu aliviar algo nele.

Na volta para casa, minha mãe comentou que Helena havia pedido ajuda para aprender a fazer um prato que Roberto gostava desde a juventude.

— E você vai ensinar?

— Talvez.

Meu pai sorriu.

— Isso significa sim.

— Fique quieto.

Nossa própria reforma estava praticamente concluída.

O telhado fora reparado, a parte elétrica renovada e a cozinha ganhou algumas melhorias que minha mãe desejava havia anos.

Nada lembrava luxo.

Mas a casa parecia mais clara.

Um fim de tarde, enquanto organizávamos os últimos móveis, minha mãe parou no meio da sala.

— Passei anos imaginando que, se aquele dinheiro voltasse, eu compraria um monte de coisas.

Meu pai perguntou:

— E agora?

Ela olhou ao redor.

— Agora descobri que eu queria mesmo era parar de sentir que tínhamos sido feitos de idiotas.

Meu pai ficou sério.

— E parou?

Minha mãe demorou.

— Estou parando.

Foi a resposta mais sincera possível.

Na mesma semana, o presidente da associação procurou meu pai para propor uma pequena cerimônia de conclusão das obras.

Nada grandioso.

Apenas uma confraternização no salão comunitário.

Meu pai não queria falar.

Roberto também preferia evitar qualquer homenagem pessoal.

No fim, concordaram em participar desde que o evento fosse tratado como inauguração da estrada, e não como celebração de uma única pessoa.

Durante os preparativos, um detalhe chamou minha atenção.

Quase ninguém falava mais do Rolls-Royce.

O carro que paralisara a vila semanas antes continuava estacionado na garagem de Roberto, mas já não era assunto.

As pessoas tinham voltado ao trabalho, às contas, às plantações, às brigas de família e a tudo que compõe uma vida comum.

Aquilo confirmou algo que eu começara a entender.

A riqueza de Roberto causara impacto porque era novidade.

Mas não tinha poder para sustentar uma relação.

Quando o espanto desapareceu, sobraram apenas as pessoas.

E era com essas pessoas, imperfeitas e cheias de erros, que precisávamos decidir o que fazer.

Na véspera da confraternização, Roberto veio à nossa casa.

Sentamos no quintal.

— Amanhã eu queria agradecer ao Antônio na frente de todos.

Meu pai balançou a cabeça.

— Já fez isso.

— Quero fazer direito.

— Não transforme sua dívida em espetáculo de novo.

Roberto ficou quieto.

Minha mãe, surpreendentemente, entrou em defesa dele.

— Deixe falar.

Meu pai olhou para ela.

— Você quer discurso?

— Não. Quero ver se ele aprendeu a fazer um sem parecer candidato.

Eu quase engasguei de tanto rir.

Roberto também.

Meu pai acabou cedendo.

— Dois minutos.

— Cinco.

— Três.

— Fechado.

Naquela noite, quando Roberto foi embora, meu pai ficou olhando a estrada.

— Você acha que ele mudou? — perguntei.

Meu pai respondeu:

— Acho que está mudando.

— Qual a diferença?

— Quem mudou acha que terminou. Quem está mudando sabe que precisa continuar amanhã.

Guardei a frase.

Porque ela não servia apenas para Roberto.

Servia para todos nós.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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