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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Rafael abriu a boca algumas vezes, mas demorou a encontrar uma resposta. Meu sogro, por outro lado, não parecia disposto a deixar que o filho falasse. — O que foi prometido antes do casamento é uma coisa. Agora vocês formam uma família e precisam seguir as regras da casa. Olhei para ele e perguntei calmamente quem, exatamente, havia criado aquelas regras.

Minha sogra bateu a mão na mesa. — Está vendo, Rafael? É disso que eu estava falando ontem. Ela mal entrou na família e já quer mandar em todo mundo. Rafael esfregou o rosto, claramente desconfortável, mas não disse que a mãe estava errada.

Eu então apontei para o cartão que ainda estava nas mãos do meu sogro. — Primeiro, devolva isso ao Rafael. O salário é dele. Se ele quiser dar dinheiro a vocês depois de pagar as próprias despesas, é uma decisão dele, mas vocês não vão controlar nossas contas.

— Nossas contas? — minha sogra repetiu. — Você nem trabalha. Quem é você para falar desse jeito? Meu marido levantou os olhos para ela, mas, novamente, não a interrompeu.

Foi naquele instante que entendi que meu problema não era apenas o comportamento dos meus sogros. Rafael havia crescido acreditando que discordar dos pais era uma espécie de desrespeito. E, enquanto ele continuasse assim, qualquer promessa feita a mim sempre poderia desaparecer no primeiro momento de pressão.

— Rafael — falei —, eu não estou pedindo para você brigar com seus pais. Estou pedindo para você cumprir o que prometeu e agir como meu marido. Ele abaixou a cabeça.

Minha sogra perdeu a paciência. — Se ela não aceita as regras da família, então que vá embora! Nesta casa ninguém vai viver sem contribuir. A frase saiu tão rápido que, por alguns segundos, ninguém disse nada.

Olhei ao redor da sala, depois para o corredor que levava ao quarto onde havíamos passado nossa noite de casamento. O apartamento era amplo, bem localizado e tinha sido preparado durante meses antes da cerimônia. Então não consegui evitar um sorriso.

— Se alguém tiver que sair, talvez não seja eu. Minha sogra franziu a testa. Meu sogro me encarou como se eu tivesse acabado de dizer um absurdo.

Rafael ficou imediatamente tenso. Ele sabia exatamente do que eu estava falando. O apartamento havia sido comprado pelo meu pai antes do casamento e registrado em meu nome. Meus sogros sabiam que minha família tinha ajudado com a moradia, mas pareciam ter se acostumado rapidamente à ideia de que, depois que eu me casasse, tudo passaria a fazer parte da autoridade deles.

— Este apartamento está no meu nome — expliquei. — Vocês vieram ficar aqui porque Rafael pediu que passassem alguns dias conosco depois do casamento. Isso nunca significou que vocês ganharam o direito de decidir como eu vivo.

Minha sogra ficou pálida de raiva. — Então agora você está nos expulsando? Balancei a cabeça. — Ainda não. Estou dizendo que vocês não podem me ameaçar com a porta de uma casa que não é de vocês.

Meu sogro empurrou o cartão na direção de Rafael. — Pegue. Se sua esposa quer transformar tudo em disputa de propriedade, administre sua própria vida. Rafael recebeu o cartão lentamente, sem parecer aliviado.

— Pai, não é isso que ela está dizendo — ele murmurou. Pela primeira vez naquela manhã, havia algum esforço da parte dele para me defender, mas ainda era tímido demais para mudar realmente a situação.

Olhei para ele. — Então diga você mesmo o que eu estou dizendo. Rafael respirou fundo. — Ela está dizendo que nosso dinheiro deve ser assunto nosso.

Minha sogra ficou olhando para o filho como se ele tivesse cometido uma traição. — Depois de tudo o que fizemos por você? Rafael apertou o cartão entre os dedos. — Mãe, isso não tem relação com gratidão.

A resposta dele não apagou o que havia acontecido, mas foi a primeira pequena mudança desde o início daquela manhã. Mesmo assim, eu sabia que palavras não bastariam. — Daqui para frente — falei —, nenhuma decisão sobre dinheiro será tomada sem os dois concordarem. E ninguém de fora vai administrar nossas contas.

Meu sogro se levantou. — Então não conte conosco quando as coisas derem errado. — Tudo bem — respondi. — Eu nunca pedi que vocês assumissem nossas responsabilidades.

Rafael permaneceu sentado enquanto os pais saíam da mesa. Quando ficamos sozinhos, ele tentou segurar minha mão. Eu afastei a minha antes que ele conseguisse.

— Lívia, eu errei. Olhei para ele. — Você não errou porque entregou um cartão. Você errou porque, na primeira manhã do nosso casamento, escolheu uma regra dos seus pais em vez de uma promessa feita a mim.

Ele não tentou se defender. E isso, naquele momento, era melhor do que qualquer desculpa. Mas também não era suficiente.

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