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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Nas semanas seguintes, a casa ficou mais tranquila.

Mas tranquilidade não significava que tudo estava resolvido.

Às vezes, durante o jantar, Sofia ficava em silêncio sem motivo aparente. Em outras ocasiões, quando meu celular tocava e aparecia o nome de minha mãe na tela, eu percebia seus ombros ficarem tensos por um instante.

Ela nunca pediu que eu bloqueasse Vera.

Também nunca tentou controlar quando eu falava com ela.

Isso me obrigou a perceber uma coisa importante: Sofia não queria administrar minha relação com minha mãe. Ela queria ter certeza de que eu administraria essa relação sem sacrificá-la novamente.

Uma noite, depois que terminamos de organizar algumas roupas do bebê, sentei-me ao lado dela.

— Quero perguntar uma coisa, mas não quero que você responda só para me deixar melhor.

Sofia levantou os olhos.

— Pergunta.

— Antes daquele dia, quantas vezes você ficou calada porque achava que eu escolheria ficar do lado deles?

Ela demorou tanto para responder que eu já tinha entendido parte da resposta.

— Muitas.

Meu estômago apertou.

Sofia explicou que minha mãe fazia comentários sobre sua maneira de cozinhar, sua rotina, seu trabalho e até sobre como ela deveria cuidar da casa. Lucas aparecia esperando ser servido, e quando ela demonstrava incômodo, eu sempre encontrava uma justificativa.

“Ele ainda é novo.”

“Minha mãe sempre foi assim.”

“Vamos evitar discussão.”

“Não leva para o lado pessoal.”

Ouvir minhas próprias frases pela voz dela foi desconfortável.

Nenhuma era uma agressão.

Mas, juntas, formavam uma mensagem clara: a paz com minha família era mais importante do que o desconforto dela.

— Eu achava que estava equilibrando os dois lados — admiti.

— Só que eu era o lado que sempre precisava ceder.

Não havia como discordar.

Naquele dia, fizemos um acordo que não tinha relação apenas com minha mãe.

Se qualquer pessoa da família ultrapassasse um limite importante, nós conversaríamos entre nós antes de tentar agradar terceiros. Nenhum parente teria acesso automático à nossa casa, ao bebê ou às nossas decisões apenas por ser parente.

Poucos dias depois, Lucas me procurou novamente.

Dessa vez, não pediu desculpas.

Pediu dinheiro.

Disse que precisava pagar algumas despesas e que minha mãe estava pressionada.

Perguntei se havia conseguido emprego.

— Ainda não apareceu nada bom.

— Você foi às entrevistas que eu mandei?

Ele hesitou.

A resposta estava no silêncio.

— Lucas, eu disse que ajudaria você a procurar trabalho.

— Eu não quero trabalhar por qualquer salário.

— Então você pode continuar procurando o salário que considera adequado enquanto se sustenta de outra maneira.

Ele perdeu a paciência.

— É fácil falar quando você tem dinheiro.

— Não estou dizendo que é fácil.

— Antes você ajudava.

— Antes eu confundia ajuda com impedir você de sentir qualquer consequência das próprias escolhas.

Lucas desligou irritado.

Mais tarde, minha mãe ligou para dizer que eu estava humilhando meu irmão.

— Ele só pediu uma ajuda.

— E eu ofereci ajuda.

— Mandar currículo não enche barriga.

— Se estiver faltando comida, eu compro comida.

Ela ficou em silêncio.

— Mas não vou transferir dinheiro para ele continuar sem procurar emprego de verdade.

Minha mãe disse que eu estava ficando frio.

Eu respondi que assumir responsabilidades não era frieza.

Dois dias depois, Lucas me enviou o currículo.

Não escreveu nada além de “olha aí”.

Revisei o documento e devolvi algumas sugestões.

Também encaminhei vagas.

Não liguei para empregador nenhum, não pedi favor a conhecido algum e não garanti um emprego para ele. A responsabilidade de se apresentar, conversar e aceitar ou rejeitar uma oportunidade seria dele.

Na semana seguinte, ele me avisou que tinha conseguido uma entrevista.

Respondi apenas:

“Boa sorte.”

Sofia viu a mensagem.

— Você está feliz?

— Um pouco.

— Mesmo depois do que ele fez?

Pensei.

— Quero que ele assuma a própria vida. Isso não significa esquecer o que aconteceu.

Ela sorriu discretamente.

— Acho justo.

Enquanto isso, minha mãe reduziu as ligações.

A princípio imaginei que tivesse compreendido meus limites, mas logo percebi que ela apenas esperava que o tempo amolecesse minha decisão.

Quando me convidou para um almoço de família, perguntou se eu iria sozinho.

— Não.

— Então você não vem?

— Se Sofia não for bem-vinda e respeitada, eu também não vou.

— Você precisa levar tudo para esse lado?

— Foi a senhora quem transformou isso nesse lado quando bateu nela.

Ela desligou.

Fiquei olhando para o celular por alguns segundos.

Antes, eu teria ligado novamente para evitar que ela ficasse magoada.

Naquele dia, não liguei.

Mais tarde, encontrei Sofia no quarto que estávamos preparando aos poucos para o bebê.

Ela dobrava pequenas roupas sobre a cama.

Sentei-me ao seu lado.

— Minha mãe fez um almoço hoje.

— Eu sei.

— Como?

— Ela me mandou uma mensagem dizendo que eu estava afastando você da família.

Senti a irritação crescer.

— Por que você não me contou?

— Porque eu queria ver se ela ia falar com você também.

— Você respondeu?

Sofia balançou a cabeça.

— Não.

Peguei meu celular.

Ela segurou minha mão antes que eu fizesse qualquer coisa.

— Rafael, não precisa comprar briga por cada mensagem.

Olhei para ela.

— Então o que você quer que eu faça?

— Continue fazendo o que está fazendo.

— Que é?

— Não volte atrás.

Naquela frase entendi que minha maior prova não seria uma grande discussão.

Seria consistência.

Era fácil defender Sofia quando a marca dos dedos ainda estava vermelha em seu rosto.

Mais difícil seria manter os mesmos limites quando a marca desaparecesse, quando a família começasse a dizer que já tinha passado tempo suficiente, quando todos esperassem que ela esquecesse para que a rotina antiga pudesse retornar.

Olhei para o quarto que, aos poucos, deixava de ser o quarto do meu irmão para se tornar o quarto do nosso filho.

E decidi que o tempo não apagaria o que havíamos aprendido.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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