
Parte 7
Passei três dias sem encontrar Caio pessoalmente.
Conversamos apenas sobre assuntos práticos. Roupas que tinham ficado no apartamento, uma conta do casamento que ainda precisava ser paga e documentos que a assessora pediu.
Nenhum de nós falou em voltar.
Na quarta manhã, Caio pediu para me encontrar em um lugar neutro.
Escolhemos um café.
Ele parecia mais cansado do que alguns dias antes.
— Cancelei a expansão — disse logo depois de sentar.
Não respondi.
— Também comecei a renegociar com os fornecedores.
— Certo.
— Vendi o carro que eu usava nos eventos da empresa. Não resolve tudo, mas reduz algumas despesas e libera caixa.
Assenti.
Aquela era a primeira vez que eu via Caio reagir ao problema da empresa sem me incluir automaticamente na solução.
— Você queria que eu fizesse isso, não queria?
— Eu queria que você assumisse as decisões da sua própria empresa.
— Estou assumindo.
Ele respirou fundo.
— Isso muda alguma coisa entre nós?
A pergunta era justa.
Pensei antes de responder.
— Muda a maneira como eu vejo essa parte. Não apaga o resto.
Caio apoiou a mão sobre a mesa.
— Eu te amo.
— Eu acredito.
Ele pareceu surpreso.
— Então por que estamos assim?
— Porque amar alguém não significa respeitar automaticamente os limites dessa pessoa.
Caio ficou em silêncio.
Expliquei que o problema não tinha começado quando ele pediu ajuda financeira. Começara antes, quando apresentou meu imóvel como se pudesse contar com ele.
Depois piorou quando contou aos pais que a casa seria nossa.
Piorou mais quando decidiu adiar a correção porque achava que, depois do casamento, eu estaria numa posição diferente.
— Você está dizendo que eu planejei te prender?
— Não. Estou dizendo exatamente o que você fez, sem inventar o que estava na sua cabeça.
Ele passou o polegar pela borda da xícara.
— Eu achei que você mudaria de ideia.
— E esse é o problema.
Caio ergueu os olhos.
— Eu cresci vendo meus pais misturarem tudo. Dinheiro, casa, decisões. Meu pai nunca teve uma conta separada da minha mãe.
— Isso explica de onde veio sua ideia. Não justifica decidir por mim.
— Eu sei.
Dessa vez, ele não acrescentou um “mas”.
Aquilo me afetou.
Por um momento, imaginei que talvez ainda houvesse caminho.
Então pensei no que eu precisaria para voltar.
Confiança.
E percebi que não sabia reconstruí-la apenas com promessas.
— Quero me separar por enquanto — falei.
Caio ficou rígido.
— Separar como?
— Morar separados. Organizar nossas finanças. Não tomar nenhuma decisão conjunta importante até entendermos se esse casamento ainda existe de verdade.
— Você está falando em divórcio?
— Estou dizendo que não vou voltar para o apartamento agora.
Ele segurou a xícara com força.
— Marina, todo casal passa por crise.
— Sim.
— E você vai terminar um casamento por causa de uma casa?
Balancei a cabeça.
— Não é por causa da casa.
— Parece.
— Se fosse pela casa, estaria tudo resolvido. Ela não está mais no meu nome. O problema é o que você fez enquanto achava que ela estaria disponível.
Caio respirou pelo nariz.
— E o que eu faço para consertar?
— Eu não sei se existe uma lista.
— Então como eu tenho chance?
Olhei para ele.
— Talvez você não tenha.
Foi difícil dizer.
Mais difícil ainda não voltar atrás.
Naquele mesmo dia, procurei uma advogada para entender como funcionaria uma eventual dissolução do casamento. Não dei entrada em nada imediatamente.
Queria saber quais seriam os passos, o que aconteceria com bens adquiridos naquele período curto e quais documentos precisaríamos reunir se decidíssemos seguir por esse caminho.
A resposta foi menos dramática do que eu imaginava.
Nossa situação patrimonial era relativamente simples. Não tínhamos filhos, não havíamos comprado imóvel juntos e o casamento tinha acabado de começar.
A casa da minha mãe sequer estava no meu nome naquele momento.
Ainda assim, nada seria resolvido por mágica.
Se houvesse acordo, o processo poderia ser bem mais simples.
Sem acordo, levaria mais tempo.
Saí do escritório com uma pasta leve na mão e um peso diferente no peito.
Não era mais o medo de perder uma casa.
Era a consciência de que talvez eu precisasse encerrar uma relação na qual tinha investido três anos, uma cerimônia, planos e uma versão inteira do futuro.
Naquela noite, Caio ligou.
— Minha mãe quer falar com você.
— Sobre quê?
— Ela diz que precisa pedir desculpas.
— Não agora.
— Ela acha que você está fazendo isso por causa do que aconteceu no casamento.
— Sua mãe não é o centro disso.
Ele ficou quieto.
— E eu sou?
— Você é meu marido. Claro que é.
— Ainda sou?
A pergunta me fez fechar os olhos.
— Legalmente, sim.
— Não foi isso que perguntei.
Não consegui responder.
Dois dias depois, Caio apareceu na casa do meu pai.
Meu pai o recebeu na sala.
Eu estava no andar de cima quando ouvi as vozes e desci.
Caio não tinha vindo me buscar.
Tinha vindo falar com meu pai.
— Eu queria pedir desculpas pela maneira como apresentei aquela proposta — disse ele. — E perguntar se o senhor ainda consideraria investir na empresa, mas sem a casa como garantia.
Meu pai cruzou as mãos.
— Com documentos completos, avaliação do negócio e condições comerciais normais, eu avaliaria como qualquer investimento.
Caio pareceu surpreso.
— O senhor não está recusando por causa da Marina?
— Estou dizendo que o dinheiro é meu e a empresa é sua. Se houver negócio, será analisado como negócio.
Eu entendi naquele instante algo que Caio ainda parecia estar aprendendo.
Meu pai podia ser controlador.
Mas, naquela situação, ele não estava tentando destruir Caio.
Estava apenas se recusando a confundir relações.
Caio olhou para mim.
Talvez tenha percebido o mesmo.
— Eu mando os documentos — disse.
— Se quiser.
Depois que ele saiu, meu pai não comentou.
— Você vai investir?
— Não sei.
— E se for ruim?
— Não invisto.
— E se for bom?
— Também posso não investir.
Eu quase sorri.
— Porque é seu dinheiro?
— Está aprendendo.
Fui para o quarto.
Meu telefone vibrou alguns minutos depois.
Era uma mensagem de Caio.
“Vou mandar tudo para seu pai. Sem esconder nada.”
Li.
Não respondi.
Porque eu finalmente entendia que transparência tardia podia ser um começo de responsabilidade.
Mas não era, por si só, uma razão para eu continuar casada.
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