
Parte 8
Caio enviou os documentos da empresa dois dias depois.
Meu pai contratou profissionais para analisar o negócio como faria com qualquer investimento de grande porte. Não me colocou nas reuniões e eu não pedi para participar.
Aquilo já não precisava passar por mim.
Enquanto isso, Caio e eu continuávamos separados.
Ele mandava mensagens curtas, quase sempre práticas. A mudança me chamou atenção. Não havia flores, declarações exageradas ou pedidos para que eu “parasse de ouvir meu pai”.
Talvez tivesse entendido que insistência não era reparação.
Uma semana depois, Sônia me pediu para conversar pessoalmente.
Aceitei porque queria encerrar também aquela parte da história.
Encontramo-nos numa padaria perto da casa dela.
Sônia parecia menor sem a energia que costumava ocupar qualquer ambiente.
— Eu fui inconveniente no casamento — começou. — Não deveria ter falado da casa na frente de todo mundo.
— Não deveria.
Ela assentiu.
— O Caio tinha dito que seu pai passaria a casa para vocês. Eu acreditei.
— Mesmo depois de eu explicar que não?
Sônia mexeu na bolsa.
— Achei que vocês tinham brigado e depois fariam as pazes.
Ali estava a mesma lógica.
Meu “não” era tratado como etapa provisória.
— A senhora percebe que todo mundo esperava que eu mudasse de ideia?
Ela levantou os olhos.
— Talvez.
— E se eu não mudasse?
Sônia não respondeu.
Esperei.
Por fim, ela disse:
— Então nós teríamos que aceitar.
— Era isso que eu precisava desde o início.
Ela respirou fundo.
— O Caio sempre foi muito determinado. Quando quer alguma coisa, insiste até conseguir.
— Eu sei.
— Eu achava isso uma qualidade.
— Pode ser. Desde que a coisa que ele queira não seja uma decisão de outra pessoa.
Sônia ficou alguns segundos olhando para as próprias mãos.
— Você vai se divorciar dele?
— Ainda não decidi definitivamente.
— Ele está destruído.
Não respondi.
Ela percebeu.
— Eu não estou pedindo que fique com ele por pena.
— Ainda bem.
— Só estou dizendo que ele entendeu.
— Espero que sim.
Saí daquela conversa sem raiva de Sônia.
Também sem vontade de agradá-la.
Era uma sensação nova.
Meu pai recebeu o relatório preliminar sobre a empresa na semana seguinte. Não me entregou detalhes confidenciais, mas me disse o suficiente para eu entender o quadro.
A empresa tinha operação real, clientes reais e capacidade de continuar funcionando.
O problema era o ritmo de crescimento.
Caio tinha assumido compromissos contando com receitas futuras e queria dinheiro novo para evitar reduzir os planos.
— Vai investir? — perguntei.
— Não nessas condições.
— Porque o negócio é ruim?
— Porque o retorno não compensa o risco para mim.
— Vai dizer isso a ele?
— É o mínimo.
A reunião aconteceu dois dias depois.
Caio me pediu para estar presente.
Hesitei, mas aceitei.
Não porque eu tivesse participação no negócio.
Porque a origem de toda aquela crise estava naquela primeira proposta.
Sentamos os três na sala do meu pai.
Caio ouviu a recusa sem interromper.
Meu pai explicou que a empresa precisava primeiro provar que conseguia reorganizar o caixa e ajustar a expansão.
Nenhum dinheiro seria colocado apenas para preservar um plano agressivo de crescimento.
Caio perguntou se poderia reapresentar a proposta no futuro.
— Pode — meu pai respondeu.
E foi só.
Quando a reunião terminou, Caio não se levantou imediatamente.
— Eu preciso dizer uma coisa.
Meu pai olhou para ele.
Caio virou-se para mim.
— Quando eu coloquei a casa naquela apresentação, não achei que estivesse roubando nada.
Eu permaneci quieta.
— Na minha cabeça, depois do casamento você acabaria concordando. Eu achei que era uma questão de tempo.
Meu pai não interferiu.
— Depois, quando você começou a dizer não, eu senti que estava sendo rejeitado. Não só a ideia. Eu.
Caio passou a mão pelo rosto.
— E fiquei tentando fazer você ceder em vez de perguntar por que seu limite era tão importante.
Eu perguntei:
— E quando contou aos seus pais?
— Eu quis mostrar que estava construindo uma vida grande. Que tinha uma casa boa, uma empresa crescendo, uma família começando.
— Uma casa que não era sua.
— Eu sei.
— Sabia na época.
Ele baixou a cabeça.
— Sabia no papel. Acho que não aceitava de verdade.
A resposta não o tornava inocente.
Mas era a primeira explicação que não me empurrava a culpa.
Meu pai se levantou.
— Acho que essa parte é entre vocês.
Saiu da sala.
Ficamos sozinhos.
Caio me encarou.
— Eu não quero perder você.
— Eu sei.
— Eu estou tentando mudar.
— Também sei.
— Então por que parece que isso não é suficiente?
Pensei antes de responder.
— Porque mudança não é pagamento. Você não faz algumas coisas certas e recebe o casamento de volta.
Ele fechou os olhos.
— Isso é duro.
— É.
— Você ainda me ama?
A pergunta me atingiu.
— Sim.
Caio abriu os olhos.
— Então ainda existe alguma coisa.
— Existe amor. Mas eu não sei se ainda existe confiança suficiente para construir uma vida em cima dele.
Ele respirou fundo.
— O que você decidiu?
Dessa vez, eu tinha uma resposta.
— Quero o divórcio.
Caio ficou imóvel.
Nenhum grito.
Nenhuma acusação.
Depois de um tempo, perguntou:
— Definitivamente?
— Sim.
As lágrimas apareceram nos olhos dele, mas ele não tentou escondê-las.
— Porque eu queria a casa?
— Porque, quando eu disse não, você tratou meu não como algo temporário. Eu não quero viver num casamento em que meus limites só são respeitados depois de uma crise.
Ele baixou a cabeça.
— Entendi.
Aquela palavra não apagava nada.
Mas encerrou uma parte da guerra.
Quando saí da sala, meu pai estava no corredor.
Não perguntou o que eu tinha decidido.
Eu passei por ele, parei alguns passos depois e falei:
— Vou me divorciar.
Ele apenas assentiu.
— Está bem.
— Só isso?
— A decisão é sua.
Dessa vez, ouvi aquela frase sem irritação.
E percebi que, finalmente, ela era verdade.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














