
PARTE 2
Carlos ficou com a mão parada sobre a porta do motorista e me encarou. — O que você está fazendo? Coloquei o cinto com calma e respondi: — Indo pescar. Você disse tantas vezes que aposentadoria é para descansar que resolvi seguir seu conselho.
Ele franziu a testa. — Mas você nunca gostou de pescar. — Talvez eu nunca tenha tido tempo para descobrir se gostava — respondi. — Durante muitos anos, enquanto você tinha seus compromissos, eu tinha os meus e também cuidava da casa.
Carlos entrou no carro resmungando que aquilo era bobagem. Eu não discuti. No banco de trás estava o equipamento que eu havia comprado, ainda dentro da embalagem. Quando ele viu, percebeu que eu não estava fazendo aquilo apenas para provocá-lo.
No caminho, ele perguntou quem faria o almoço. Respondi que havia comida em casa e que Lucas sabia esquentar. Carlos soltou um suspiro impaciente, mas não insistiu. Pela primeira vez em muito tempo, eu não reorganizei meu dia para acomodar os planos dele.
No lugar onde costumava pescar, Carlos encontrou dois conhecidos. Os três pareceram surpresos ao me ver chegando com uma vara nova. Eu apenas cumprimentei todos e procurei um canto tranquilo, sem transformar a situação em espetáculo.
Pescar não era tão simples quanto eu imaginava. Passei um tempo tentando entender a linha, o anzol e os movimentos certos, e Carlos acabou explicando algumas coisas. Não houve carinho especial naquele gesto, mas também não houve briga. Ficamos cada um cuidando da própria vara.
Depois de algum tempo, percebi que o que me agradava não era exatamente a pesca. Era poder ficar sentada sem relógio, sem pensar em compras, jantar, roupa ou no que alguém esperava de mim. Só aquele silêncio já parecia uma novidade.
Na volta, Carlos sugeriu que passássemos em um restaurante. — Estou com fome. Podemos comer alguma carne. Olhei para ele. — Se você quiser pagar, por mim tudo bem. Eu não separei dinheiro para restaurante.
Ele me olhou como se minha resposta fosse absurda. — Helena, não precisa começar com isso. — Não comecei nada — respondi. — Você decidiu o destino da sua aposentadoria. Eu apenas estou decidindo o destino da minha.
Em casa, Lucas estava na cozinha procurando alguma coisa para comer. Quando nos viu, perguntou por que eu tinha ido pescar. Carlos respondeu antes de mim: — Sua mãe agora resolveu que também está aposentada de tudo. Não gostei do tom, mas preferi não entrar naquela provocação.
Abri a geladeira e preparei uma refeição simples para mim. Lucas perguntou se não haveria algo mais caprichado. — Há comida suficiente — disse. — Quem quiser outra coisa pode comprar e preparar. Vocês disseram que eu precisava ser mais generosa com o dinheiro dos outros; agora estou sendo mais cuidadosa com o meu.
Naquela noite, deixei uma coisa muito clara. As despesas básicas da casa continuariam existindo, e eu pagaria minha parte. Carlos teria de pagar a dele, e Lucas, que trabalhava e ainda morava conosco, também poderia contribuir com algumas contas em vez de considerar a casa um lugar onde tudo aparecia pronto.
Lucas ficou desconfortável. Carlos disse que eu estava exagerando por causa de uma discussão. Respondi que não era castigo. Era apenas uma nova organização para uma nova fase da vida.
Dois dias depois, Carlos fez a transferência que havia prometido a Marta. Não tentei impedir. Quando me contou, apenas assenti e perguntei se ele já tinha separado o dinheiro da parte dele nas despesas daquele mês.
O sorriso desapareceu do rosto dele. Foi a primeira vez que percebi que Carlos havia pensado cuidadosamente em quanto queria dar à família do irmão, mas não em quanto custava manter a própria vida. E eu não corri para resolver a conta por ele.
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