Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Quando o avião pousou, o céu ainda estava clareando. Eu não conhecia ninguém naquela cidade, não tinha casa, emprego nem um plano detalhado, mas pela primeira vez em anos também não precisava perguntar a ninguém se podia fazer alguma coisa. Saí do aeroporto puxando a mala com uma mão e segurando o colar da minha mãe dentro do bolso do casaco com a outra. A ardência no rosto já tinha diminuído, mas a lembrança do tapa continuava muito nítida.

Peguei um carro até uma pequena pousada perto do centro e paguei alguns dias de hospedagem. O quarto era simples, com uma cama estreita, uma mesa e uma janela voltada para prédios baixos, mas quando fechei a porta senti uma tranquilidade que não experimentava havia muito tempo. Coloquei a mala no chão e me sentei na beirada da cama. Foi só então que vi as chamadas perdidas.

Marcelo havia ligado dezessete vezes. Havia também mensagens perguntando onde eu estava, primeiro irritadas, depois confusas e, por fim, preocupadas. Na última, ele escreveu: “Helena, já chega. Volta para casa e a gente conversa.” Li duas vezes e desliguei a tela sem responder.

Talvez, três anos antes, eu tivesse interpretado aquela frase como preocupação. Naquela manhã, porém, percebi outra coisa: ele ainda acreditava que minha saída era apenas uma crise passageira. Para Marcelo, eu precisava me acalmar e voltar ao lugar de sempre. Para mim, aquele lugar já não existia.

Tomei banho, troquei de roupa e saí para andar. Eu precisava descobrir quanto custaria permanecer ali e quanto tempo conseguiria sobreviver sem renda fixa. Anotei preços de quartos para alugar, transporte, alimentação e tudo o que parecia essencial. Pela primeira vez desde que havia me tornado dona de casa, eu estava organizando uma vida que pertencia somente a mim.

Durante a tarde, Marcelo voltou a ligar. Não atendi. Camila também mandou uma mensagem dizendo que eu tinha exagerado e que “ninguém precisava destruir uma família por causa de uma discussão”. Apaguei a notificação sem responder, porque discutir com ela significaria continuar presa à mesma lógica que me fizera sair.

Naquela noite, entretanto, percebi que simplesmente desaparecer não resolveria tudo. Eu ainda era legalmente casada, ainda havia questões práticas a serem encerradas e precisava deixar claro que estava segura. Então escrevi uma única mensagem para Marcelo: “Estou bem. Não vou voltar. A partir de agora, qualquer assunto necessário entre nós será tratado por escrito.”

A resposta chegou quase imediatamente. “Você perdeu a cabeça? Tudo isso por causa de um tapa?” Fiquei olhando para aquelas palavras durante alguns segundos. Depois compreendi que ele tinha acabado de me dar mais uma certeza sobre a decisão que eu havia tomado.

Não respondi. No dia seguinte, comecei a procurar trabalho. Meu currículo tinha um intervalo de três anos, e isso me constrangia mais do que eu gostaria de admitir, mas enviei candidaturas mesmo assim, inclusive para vagas abaixo do nível que eu havia alcançado antes do casamento. Eu não precisava provar nada para Marcelo; precisava apenas voltar a caminhar com as próprias pernas.

Também procurei orientação jurídica sobre o divórcio. A advogada que me atendeu explicou, com calma, que eu não precisava convencer Marcelo de que meu motivo era suficiente para terminar o casamento. Aquela frase ficou comigo por muito tempo. Durante três anos eu tinha me acostumado a justificar cada escolha, mas para sair daquela relação eu não precisava da autorização dele.

Quando Marcelo recebeu a comunicação de que eu pretendia seguir com o divórcio, suas mensagens mudaram. Primeiro veio a indignação, depois a incredulidade e, por fim, uma sequência de tentativas de negociação. Ele dizia que tinha errado, mas acrescentava que eu também havia provocado a discussão, que Camila era imatura e que tudo poderia ser resolvido se eu voltasse.

Eu lia apenas o necessário. Não atendia às ligações. Cada vez que o nome dele aparecia na tela, meu coração ainda acelerava, mas eu já não confundia aquele desconforto com vontade de retornar.

No final daquela primeira semana, consegui uma entrevista para uma vaga administrativa em uma pequena empresa. O salário não era alto e a função estava longe de ser especial, mas saí de lá com a promessa de uma resposta em poucos dias. Caminhei até a orla, sentei-me num banco e fiquei olhando o mar. Eu ainda não sabia como seria minha vida, mas pela primeira vez o futuro não estava sendo decidido dentro da sala de uma família que acreditava ter o direito de me diminuir.

Naquela mesma noite, Marcelo ligou outra vez. Deixei o celular tocar até parar e, depois, o coloquei virado para baixo sobre a mesa. Não era uma vingança. Era a primeira fronteira que eu estabelecia e realmente mantinha.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 3 👇📖

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1