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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto do quarto do hotel, tentando decidir se havia exagerado durante a madrugada, mas bastou abrir o vídeo salvo para lembrar que não existia interpretação inocente para o que eu vira. Antes de sair para o último dia do congresso, entrei no aplicativo do banco e comuniquei a perda do cartão, solicitando o bloqueio definitivo daquele plástico. Não mexi no dinheiro e não avisei Henrique.

Eu queria proteger o que era meu sem transformar aquilo numa disputa precipitada. Também alterei a senha de acesso ao aplicativo e encerrei qualquer sessão bancária aberta em outros aparelhos. Depois guardei o celular na bolsa e desci para o evento. Pela primeira vez desde que começara aquela viagem, precisei fazer esforço para prestar atenção nas palestras.

Pouco depois das onze da manhã, meu celular vibrou. A primeira ligação era de Sônia. Deixei tocar. Um minuto depois, ela ligou outra vez, e então uma terceira.

Logo surgiram ligações de Júlia. Em seguida, Henrique começou a ligar também. Eu mantive o aparelho no silencioso e continuei sentada, anotando o que o palestrante dizia como se aquilo fosse o único assunto importante naquele momento. Quando chegou o intervalo, havia 27 chamadas perdidas.

Abri as notificações do banco. Havia uma tentativa de pagamento recusada no cartão bloqueado. Não apareceu nenhuma retirada de dinheiro, e o saldo permanecia intacto. Foi então que entendi que eles não tinham pegado o cartão apenas para “guardar” ou para conversar comigo depois.

Voltei para o auditório. O número de chamadas continuou aumentando durante a tarde. Quando terminou a última mesa do congresso, contei 112 ligações perdidas entre Sônia, Júlia e Henrique. Havia também diversas mensagens de Henrique pedindo que eu retornasse “urgentemente”, sem explicar qual era a emergência.

Não respondi na hora. Fui para o aeroporto, despachei minha mala e só depois me sentei perto do portão de embarque. Liguei primeiro para Henrique. Ele atendeu antes mesmo do segundo toque.

— Larissa, onde você estava? — perguntou, quase sem respirar. — Estou tentando falar com você faz horas.

— No congresso. O que aconteceu?

Houve uma pausa. Henrique parecia estar procurando uma frase que não o comprometesse. — Minha mãe teve um problema com um cartão e achou que talvez você pudesse ajudar. — Que cartão? — perguntei, embora soubesse perfeitamente.

O silêncio seguinte foi mais revelador que qualquer resposta. — Um cartão que… estava lá em casa — disse ele. — Ela achou que era outro. — Outro de quem, Henrique? — perguntei. Ele não respondeu.

Eu poderia ter dito naquele instante que vira tudo pelas câmeras, mas decidi não fazer isso. — Quando eu chegar, nós conversamos — falei. — E, por favor, não vá ao aeroporto. — Larissa, não faz isso. Deixa eu explicar. — Amanhã você vai ter oportunidade de explicar.

Desliguei antes que ele continuasse. Logo depois, Sônia tentou me ligar outra vez. Não atendi. Júlia mandou uma mensagem dizendo apenas que “tinha acontecido um mal-entendido” e que ninguém queria me prejudicar.

A palavra me incomodou. Mal-entendido era pegar a bolsa errada por acidente. Procurar minhas chaves reserva, abrir uma gaveta trancada, retirar um cartão, fechar tudo e depois tentar usá-lo não era um acidente. Eu não precisava decidir naquele momento que nome jurídico daria àquilo, mas já sabia que não trataria o episódio como uma simples confusão familiar.

Durante o voo, pensei menos no dinheiro do que esperava. Os R$ 7 milhões estavam seguros. O que não estava seguro era a imagem que eu tivera do meu casamento até então. Quanto mais eu lembrava da ligação de Henrique enquanto a mãe dele revirava meu escritório, mais difícil era acreditar que ele estivesse apenas sendo manipulado por ela.

Ao desembarcar, peguei um carro por aplicativo e fui direto para um hotel próximo ao meu apartamento. Não queria chegar em casa cansada, cercada pelos três e pressionada a aceitar a primeira versão que inventassem. Mandei uma única mensagem para Henrique: “Estou bem. Amanhã às dez, quero conversar com você. Sozinho.”

Ele respondeu quase imediatamente perguntando onde eu estava. Não contei. Em seguida, pediu que eu voltasse para casa e disse que Sônia estava muito nervosa. Li a mensagem duas vezes e percebi que ele ainda falava da aflição da mãe, não do que tinham feito comigo.

Naquela noite, separei numa pasta as cópias do vídeo, as notificações do banco e os registros das ligações. Não fiz aquilo para preparar uma vingança. Fiz porque já tinha aprendido, em menos de vinte e quatro horas, que palavras podiam mudar rapidamente quando alguém precisava escapar das consequências.

Antes de dormir, escrevi num papel três perguntas que eu faria a Henrique. Quem contou a Sônia onde estava o cartão? Quem lhe deu a senha? E ele sabia, antes de me ligar durante o congresso, que ela estava procurando o dinheiro?

As respostas não mudariam o que eu tinha visto. Mas mudariam o que eu faria com o casamento. Pela primeira vez desde que conhecera Henrique, eu não estava me preparando para confiar nele; estava me preparando para verificar se ainda havia alguma coisa em que confiar.

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